quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Esperança...



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 Numa tarde vazia em que o sol se escondia meio tímido por entre as montanhas, um comentário meio incoerente cortou o profundo silêncio que rodeava aquele lugar:
 – Não sei como você consegue, garoto! Disse o filho de um fazendeiro da região, que estava a caminhar e parou para observar um moleque na rua.
 – Como eu consigo o que? Perguntou o moleque.
 – Não sei como você consegue ficar alegre desse jeito, nesse fim de tarde tão entediante. Apenas ficas aí olhando esse sol se pôr como se fosse a coisa mais bonita desse mundo!
 – E não é meu caro? Responde o moleque com graça.  – O que há de mais belo nesse mundo senão a natureza?
 – Não sei. Talvez esse relógio de ouro aqui no meu pulso, ou aquele carro do meu pai. Vai dizer que não são bonitos? – Indaga o rapaz com um ar irônico.
O moleque então mostrando não estar abalado pelas insinuações do rapaz, lhe fala: – Não meu caro senhor. Tudo isto que o senhor acabou de me mostrar são coisas belas sim, porém, são coisas apenas. E as coisas um dia se vão, um dia acabam, viram nada mais que imprestáveis quinquilharias. Por isso digo: O de mais belo que se pode ter ou admirar são as coisas feitas pelo Senhor. Essas sim têm um valor inestimável e estão ao alcance de todos; mesmo àqueles que não mereciam um punhado de luz em seu dia.
O filho do fazendeiro silencia por um momento, pensando em uma resposta para dar ao sujeito.  Após algum tempo, fala outra ironia:
 – Você ainda mora naquela casa que estava prestes a cair?
 – Moro. Responde o moleque.
 – E ela ainda não caiu?
 – Não, senhor. Ainda não caiu. Acho que ela ainda aguentará firme daqui para que minha família possa reconstruí-la. Tenho a esperança de conseguir erguê-la novamente, pois tenho um apreço muito grande por aquela casa. Vivo ali desde pequeno. Mas agora eu te pergunto com todo o respeito: Você não se cansa, senhor? Você não se cansa de viver à custa de seu saudoso pai? Parece-me que ele não gosta nada, nada de sua presença naquela casa. Também, preguiçoso como o senhor é, não é para menos!
 – O que? Como ousa dizer isso de mim? Como ousa me chamar de preguiçoso? Você não sabe com quem está se metendo seu moleque atrevido!
 – Eu, atrevido, senhor? Retruca o moleque olhando para o horizonte.  – Não acho que deva ser eu o atrevido por aqui. O senhor passa por mim sem ao menos dizer “boa tarde”; começa a intrometer-se em minha vida e eu é que sou o atrevido? Tenha dó!
O rapaz fica irado e levanta a mão, ao mesmo tempo em que diz – Ora... Está na hora de você levar umas boas bofetadas, seu moleque!
Nesse momento, o fazendeiro, pai do rapaz inconsequente, aparece e segura a mão de seu filho:
 – O que você ia fazer, meu filho? Onde já se viu tratar o outro desse modo?
O rapaz meio desconfiado, na tentativa de sair da situação sem prejuízos para si coloca toda a culpa no moleque: – Foi ele quem me desafiou. Ele me chamou de atrevido e preguiçoso!
 – E ele disse alguma mentira meu filho?  Pelo que sei você é tudo isso e muito mais. Eu aposto que você deve tê-lo provocado para te falar essas coisas. Rebate o pai.
O moleque os olha com um ar de inquietude, querendo pedir desculpas por tudo que aconteceu.
O fazendeiro manda seu filho para casa, para mais tarde terem uma longa conversa. Depois faz algumas perguntas ao moleque a fim de afirmar aquilo que já sabe: Seu filho havia provocado toda aquela situação.
Após confirmar tudo, curioso ele fala:
– Não me lembro de você. Onde você mora?
– Moro naquela casa perto do riacho que está quase desmoronando. Responde o moleque. Mas ainda tenho fé de reconstruí-la.
O senhor, de supetão, faz uma proposta ao moleque:
 – Garoto, eu estou disposto a ajudar na reconstrução de sua casa. Diga a seus pais que organizem suas coisas, pois ainda esta semana darei início a sua reconstrução! Está bem?
O moleque não coube em si de tanta felicidade. Gaguejou ao agradecer ao senhor fazendeiro:
 – Puxa, muito, muito... obri...gada, senhor! Não tenho como agradecer sua atitude!
Ainda sorrindo, saiu em disparada para contar a novidade a sua família.
Levaram alguns dias para organizar tudo. O fazendeiro alugou uma casa para que a família se instalasse.
Demorou pouco mais de um mês para a conclusão da obra.
No dia da inauguração, houve uma pequena festa custeada também pelo fazendeiro. Mas, para o moleque, aquela festa não tinha importância. O fato de sua casa estar de pé novamente o deixara bastante feliz.
A casa havia ficado linda! As paredes externas foram pintadas de verde; a cor preferida do moleque.
Ao olhar para a casa, o garoto com um sorriso no rosto, pensava: – Ah!... A esperança!
Durante a festa, o filho do fazendeiro surgiu meio desconfiado. E, com certo receio perguntou ao moleque:
 – Eu posso fazer parte de sua festa?
E o moleque sem hesitar respondeu:
 – Claro que sim! Entre aí; não tenho ressentimentos em relação a você. E além disso, a festa está sendo paga pelo seu pai, então não tem porque eu impedir sua entrada. Espero que você tenha se arrependido pelo que fez.
 – Esteja certo que sim. Respondeu o rapaz. – Depois daquele dia, meu pai me deu um grande ensinamento. Após cortar meus cartões de crédito e recolher todos os meus pertences, ele me mandou cuidar de seus cavalos. No começo foi horrível, nunca havia chegado perto daquele esterco fedorento.
E continuou: – Aprendi à duras penas como é viver com pouco. Mas durante o período de punição, consegui encontrar a felicidade e então entendi como você se sentiu naquele dia, ao contemplar a natureza. Não foi fácil para mim passar esses dias sem luxo, sem vaidade, mas na simplicidade encontrei um sentido para a vida e desse modo passei a admirá-lo.
E ainda com alegria disse ao moleque: – Você é especial!
O moleque emocionou-se com as palavras do rapaz, e, abraçando-o disse:
 – Eu acredito em você e te perdoo por aquele dia!
Esse momento de reconciliação deu um sentido especial não só àquela festa, mas à vida dos dois jovens que tinham tanto a aprender.
O rapaz, filho do fazendeiro parece ter realmente mudado. Agora vivia sempre sorrindo, ajudava o pai nos afazeres da fazenda e nunca mais deu grande valor às coisas materiais.
O moleque e o rapaz se tornaram amigos e todos os fins de tarde ensolarados ganharam um ar especial. Aquele lugar deixara de ser ermo como antes, pois agora era o abrigo perfeito para dois admiráveis jovens.

Marcilane Santos.




*Este conto foi publicado no site da Liga dos autores free.

13 comentários:

  1. Marcilane, muito legal você ter publicado esse conto aqui. Eu gostei muito. A imagem mostra bem uma bonita tarde vazia.
    Passo correndo, mas não esqueci e penso sempre.
    Beijo no seu coração
    Manoel

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    1. Obrigada Manoel. Fico feliz por ter gostado.
      A imagem é realmente bonita.
      Eu também não esqueço viu!
      Beijos :*

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  2. Lindíssimo,Marcilane! E que final maravilhoso e terno! beijos,tudo de bom,chica

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  3. Que conto belíssimo Marcilane! emociona, faz refletir...
    Um lindo dia pra você! Bj

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    Respostas
    1. Que bom receber essas palavras Ana! Obrigada.

      Beijo!! Tudo de bom para ti.

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  4. Olá gorotinha!!!
    Saudade de vc!
    Que conto lindo! O que mas me chamou a atenção
    e me fez refletir é a velha historia de que: tem
    males que vem para bem" Se não houvesse travado aquela discussão, tudo estaria do mesmo jeito!
    Beijos!

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    1. Olá!! Eu também estava com saudades de você!
      E blog? Você não fará mais postagens?
      Obrigada pelas palavras. Realmente, no fim deu tudo certo.

      Muito bom te ver por aqui... Beijos ;)

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  5. Têm três postagens novas, hoje vai enterar a quarta!
    Passa lá!!
    Beijos!

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    1. Ahh que legal!
      Pode deixar que passarei sim!
      Beijos.

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  6. Olá, Marcilane,

    Infelizmente, na vida real é difícil para muitos de desapegarem do dinheiro e valorizar o que realmente importa. Um final feliz é um estímulo à esperança. Boa inspiração! Beijinhos!

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  7. Essa passagem do menino contemplando a natureza lembra Alexandre o Grande que soube de um grande filósofo de sua éṕoca e foi vê-lo. O conquistador encontrou Diógenes e lhe perguntou o que ele desejava, pois estava disposto a lhe conceder. Diógenes respondeu: Você está fazendo sobra em mim, é possivel vc parar de tapar meu sol???

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